12 de março de 2011

A história da rosa



Nasci de uma pequena e insignificante semente. Por acidente do vento vim parar nessa terra que me acolheu, me aqueceu durante a noite e deixava o calor do sol banhar minha casca e me aquecer durante o dia. Não demorou muito até que pude sentir o sabor da terra e menos ainda para sentir seus grãos a tentar me acariciar de forma tão áspera. A chuva veio e se foi assim como os brancos flocos de neve. Tive que me esforçar muito para conseguir sobreviver a tamanho frio e a solidão já que os mais fracos sucumbiram e me abandonaram. Me escondi com falsa timidez atrás das minhas folhas ao ouvir as vozes e suspiros das pessoas que viam meu corpo desabrochando. Um tanto quanto caprichosa adiei ao máximo a minha estreia, preparei cada pétala com tamanho carinho e perfeccionismo. Por fim estava pronta. Já cansada comecei meu esforço durante o por-do-sol, não sou modesta e admito que foi um espetáculo a parte. Para minha alegria as pessoas estavam ali para me ver lentamente surgir para o mundo. Demorou dias até terminar. Em uma contagem quase que perfeita estava completamente exposta ao mesmo tempo em que os tons no céu pareciam estar em dúvida entre o laranja e o vermelho. A cada elogio, tornava-me mais rubra e orgulhosa, empertigava-me e tentava provar que eu era a mais bela. Sentia-me triste ao ficar sozinha, por vezes desejava ter pernas e poder oferecer toda a minha beleza ao mundo inteiro! Poupá-los de meu charme e elegância parecia ser um pecado.



Um dia, sem mais nem menos, senti a dor de ser arrancada e levada de minha terra por um belo rapaz. Nem meus espinhos conseguiram evitar o ato e logo fui livrada deles. Não entendi o por que disso. Ele parecia feliz e me levava com extremo cuidado como se eu fosse uma preciosidade, então parei de me importar pela violência com que me tratou anteriormente. Andamos por um tempo e a intervalos irregulares sentia minhas pétalas serem docemente acariciadas por suaves toque de seus lábios. Podia sentir seu hálito e seus lábios contorcerem-se em um sorriso. Quanto a mim, mais feliz impossível. Estava vendo outras partes do mundo, novos rostos que me olhavam com surpresa, outros que não me notavam, mas o rapaz me notara e estava feliz comigo. Aqueles breves minutos para mim foram os melhores do mundo. Chegamos a um pequeno jardim, onde as flores que estavam ali jamais poderiam ser comparadas a minha beleza. Os dedos dele tocavam rapidamente minhas pétalas como forma de alinhá-las, me senti ofendida, não já era eu bela o suficiente? As batidas secas em madeira, uma doce voz feminina e o ranger de algo que desconhecia. Um ultimo beijo em minhas pétalas e fui passada para outras mãos. Todas as ofensas se foram no momento do beijo e agora recebia outros que me marcavam com um tom vermelho bem parecido com o das minhas pétalas.

Meu antigo carregador abaixou-se e estendeu para a moça um pequeno objeto e dentro dele algo reluzia, mas não brilhavam mais do que os olhos da linda moça. O objeto reluzente adornou um dos dedos de sua mão e eu nunca esquecerei daquela cena, abraçaram-se e o toque dos lábios passou de carinhoso para urgente. O som seco que a madeira fazia ao bater em sua semelhante e lá estava eu, jogada em cima de uma mesa assistindo enquanto os corpos tocavam-se com volúpia, as mãos que percorriam cada centímetro dos corpos e suas expressões que revelavam que nada mais ali importava. Entre lençóis em desalinho promessas foram ditas e caricias suaves trocadas enquanto a noite caía. Meu corpo foi adornado por uma saborosa água e seguro por um belo cristal. Por dias estive ali e recebi vários sorrisos e beijos da moça. Mas sentia-me cada vez mais fraca, a água já não alcançava minhas pétalas que perdiam sua bela cor escurecendo lentamente. Senti que meu fim estava próximo. Já não conseguia mais ficar ereta. A vergadura que acabava por me fazer ceder aos caprichos do mundo, faziam-me curvar a seus desejos e esquecer dos meus. Não me interessava mais minha arrogância e tão pouco minha beleza que se fora.

Assisti e senti a dor de cada pétala que caía. Toda a minha elegância se fora, minha beleza tornou-se inexistente e minha nova dona já não me dava mais atenção. Sentia falta de seus lábios, mas estes não mais me acariciavam, nem mesmo tinha o direito de sentir o suave toque de seus dedos. A alegria em mim explodiu quando fui retirada do cristal, anteriormente fui levada até a moça e agora para onde estava indo?! A viagem durou pouco e minhas pétalas foram arrancadas de forma dolorosa durante o caminho. Fiquei envergonhada pela minha nova forma. Me encontrava agora totalmente nua. Não entendia o que estava acontecendo, para onde estava sendo levada e o porque disso. Fui jogada entre várias outras coisas e finalmente entendi. Já havia servido a meu propósito. Não servia para mais nada e minhas pétalas foram deixadas para trás como a lembrança de um momento. O ar me foi tirado, a escuridão foi minha única companhia. Minha força esvaía-se e por fim nem mesmo os olhos conseguia manter abertos. Dei um último suspiro enquanto pensava em toda a minha vida. Fui admirada e por duas vezes fui amada. Minha vida acabou, mas fui amada e isso me basta.

By Malka Lima - 12/03/2011

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