23 de setembro de 2013

Insensível...


“... O meu amor é mais caro, diz quanto você pode pagar...”

O toque insistente do telefone me tira a paciência. Sinto vontade de jogá-lo contra a parede e transformar esse pequeno aparelho em milhões de pedaços silenciosos. A forma de identificação facilitava minha vida, para cada grupo um toque único ou para as pessoas mais especiais ou nesse caso, as mais chatas. De forma que eu sabia quem me liga apenas nos primeiros acordes polifônicos. E daí então vinha a decisão de atender ou ignorar. Já estava cansado de ouvir aquela música e ver aquele nome piscando na tela, Angélica, Angélica, Angélica. O que ela queria desta vez? Eu já lhe dera o que fora pedido, pelo que pagou e apenas isso. Talvez esse seja o problema, ela queria o “mais” que eu não lhe podia ofertar assim de tão bom grado.



O telefone silencia, mas a paz dura pouco e começa a tortura novamente. Mais uma chamada dela e eu fico a fitar o nada, enquanto deixo o vinho tocar meus lábios e levarem meus pensamentos para o passado, explanando sobre o fato de que minha vida tinha suas vantagens, boas vantagens que eu levaria tão longe quanto fosse possível. Para mim, a minha vida começara de verdade com aquela primeira vez em que realizei um favor para um amigo e consegui comprovar que sua namorada cairia fácil na cama de qualquer um. Aposta ganha e descobri ali uma mina de ouro que eu explorava com gosto: eu conseguia seduzir mulheres com uma enorme facilidade. Porque não vender prazer? Deixei para trás muitos corações partidos e outros saudosos, que sempre pagam bem por uma nova visita.

Se me sinto culpado? Não. De forma alguma. Angélica era um desses corações partidos. Desde que a conheci e a tive entre meus braços deixei claro minhas intenções, quem eu era e o que fazia da vida. Deixei claro todos os termos dos nossos encontros esporádicos e ela concordou. Nesse caso seria melhor dizer que me iludiu muito bem. Mais um toque e eu finalmente atendo. Ela queria um encontro, pagaria bem. Era um tanto fora da rotina, ela queria apenas um café e uma conversa. Incomum para mim, mas pagando bem, que mal tem? Abro uma exceção nas minhas regras sobre encontros desse tipo. Afinal eram perigosos e as mulheres acabavam se apaixonando. Pelo visto isso já aconteceu mesmo.

Lá estava eu numa bela manhã de sábado, ouvindo seu relato do que fizera no dia, na semana, no mês, com toda a paciência que fora comprada. Ela tentava segurar minha mão que sem desculpa alguma eu retirava de perto da dela. Nada de carícias de namorados. Ela sabia dessa regra e por mais que tentasse me fazer enxergar as vantagens de um relacionamento estável, não adiantaria. A conversa continuava, dava alguns goles no café e pela expressão que ela fez, chegou a minha vez de falar. Falar o que? Com quantas me deitei essa semana? O que teve de esquisito? Porque faço o que faço? Quais as vantagens? O que tudo isso me trouxe? Essa última questão era fácil de responder. Bastava apenas uma olhada no meu apartamento muito bem equipado e confortável, no meu smartphone caro e cheio de funções e no carro caro que eu dirigia. Frutos do meu trabalho e do meu esforço, não devo satisfações a ninguém e todas as minhas contas e luxos são devidamente pagos.

Ela não ficou satisfeita com a resposta e eu pouco me importava, o tempo dela acabara e chegou a hora de ir embora, atender mais uma cliente na esperança de que a segunda parte do meu dia tenha um pouco mais de emoção e troca de fluidos corporais. Levantei sem me preocupar em deixar a conta paga, cavalheirismo não era para quem cobrava pelo prazer dado. Deixava para trás aquela pequena loira sentada a me fitar com os olhos azuis perdidos e lacrimejantes, desejando um pouco mais de afeto e carinho. Para ter isso, seria preciso que ela pagasse mais, muito mais.



Atenção: Essa crônica faz parte do meu projeto Aquela Música que é composto por crônicas inspiradas em músicas. -Insensível- foi escrita inspirada na música Aos Garotos de Aluguel d'A Banda Mais Bonita da Cidade. 

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