20 de setembro de 2013

Sobre as nuvens...


Eu não tinha mais nada para fazer daquele lado do globo, nem coisas que eu não me importo de deixar para trás. Tanto que não foi preciso mais do que algumas horas para arrumar as duas pequenas malas e uma mochila com os pertences pessoais. O simples apartamento que eu alugara mobiliado foi um achado e facilitador da minha partida, precisei apenas entregar a chave a dona e me despedir. Ouvi vários “porquês e para ques” e tantos outros “é perigoso”, mas a essa altura do campeonato podia apenas agradecer a todos os conselhos, as xícaras de açúcar e refeições enviadas nos fins de semana como um socorro a minha falta de tempo para cozinhar e parti.



Eu tinha agora 25 anos, um quarto de século, aproximadamente nove mil cento e tantos dias, nem consigo contar quantas horas e zilhões de outros segundos que eu passei morando na mesma cidade, com as mesmas pessoas e os mesmos momentos. Se tenho lembranças felizes? Sim eu tenho. Aquela rotina era o que me tirava do sério, me sentia sendo sugada dia após dia, tendo minhas alegrias tomadas pela rotina sem fim. Mas sempre sonhei e imaginei algo que me faria viver de verdade, que me faria feliz e tiraria meus pés do chão. Foi por esse motivo que sem mais nem menos fiz as malas e decidi partir para o outro lado do mundo.

Estava sozinha no salão de embarque, a passagem e documentos necessários seguros em minha mão, uma música tocava de forma retumbante e repetitiva em meu ouvido. Ah sim, a Nona, todo momento era o momento para a Nona, não importa quantas vezes ela tocasse, sempre me arrepiava quando o coral entrava ao fundo, deixando o som das cordas em segundo plano. Foi nesse exato momento em que meu voo foi chamado, guardei o pequeno mp3 e segui em frente. Não tinha ninguém para dizer adeus ou alguém que acenaria para mim em despedida enquanto eu passava chorosa para o corredor de acesso ao avião. Já estava confortável na grande poltrona, com estranhos ao meu lado e aquele medo na hora da decolagem acelerava meu coração.

Pelo visto também não era a sensação mais confortável para a pessoa ao meu lado, nossas mãos acabaram se cruzando quando fomos, ao mesmo tempo, apertar o braço da poltrona como refúgio. Não foquei seu rosto, mas gentilmente ele cedeu o apoio para meu medo, que apertei com vontade até estarmos estáveis acima das nuvens. Soltei o braço da poltrona, destravei o cinto e estava de pé pedindo com licença para pegar minha mochila no bagageiro. Tinha programado tudo para a longa viagem e ao retornar ao meu lugar, já estava com o livro nas mãos. Violino da Anne Rice, um belo e trágico romance. A mochila ia para o chão e retomava a leitura onde havia parado algumas horas antes. Mal tinha virado a primeira página e sem querer minha visão periférica captou algo que eu não esperava: o ocupante na poltrona ao meu lado também lia Violino, ergui as sobrancelhas e ao olhar para ele não pude deixar de sorrir e mostrar a capa do meu livro. A viagem acabou tornando-se curta quando desembarcamos na primeira escala e menor ainda na segunda. Nosso lugar sempre lado a lado. A noite chegara e o sono também. Quando notei estava dormindo com a cabeça apoiada em seu ombro.

Os raios de sol entravam pela pequena janela ao meu lado. Não faltavam muitas horas para o fim da viagem e eu sorria ao olhar para o homem ao meu lado. Não era um modelo de beleza nem nada do tipo, mas tinha um belo sorriso e olhos negros tão profundos que me prendiam em sua plenitude. Nessas 21 horas de viagem foi uma boa companhia. Então ele acordou e acabou sorrindo também. O carrinho empurrado por uma bela aeromoça chegou e apesar dos meus protestos ele acabou pagando pelo meu café da manhã. Comíamos entre mais perguntas e respostas bobas, falando do tempo, de livros, filmes, músicas e ele finalmente faz a pergunta que eu evitava fazer a mim mesma, "porque estava atravessando o mundo"? “Para viver” foi a única coisa que consegui responder com um erguer rápido dos ombros. O trabalho em uma livraria era um bônus conseguido por uma amiga que fizera o mesmo. Ele apenas sorriu assim como eu. Estávamos embarcando para a terceira e última escala quando começamos a rir ao notar nossos lugares novamente juntos, “é o destino” ele murmurou cheio de si e sorriu me dando o lugar na janela.

Eu não esperava sentir esse aperto no peito ou aquele arrepio quando ele segurou minha mão durante a decolagem, muito menos todo o resto que senti quando seus lábios tocaram os meus, eu nem precisava estar dentro de um avião para me sentir acima das nuvens. Tínhamos o mesmo destino, Londres, mas bairros distintos. Não fizemos promessas, nem juramos ficar juntos para sempre. Se quer marcamos um encontro posterior. Apenas trocamos endereços. Apenas deixaríamos as coisas acontecerem. Apenas. Se alguém me dissesse um dia que eu me apaixonaria a primeira vista, eu soltaria uma ressoante gargalhada. Estávamos agora passeando de mãos dadas e sorrindo como um casal que se conhece há anos. Tomamos café, almoçamos, fizemos sexo várias e várias vezes durante muitos meses.

Amores e sorrisos, lágrimas e brigas para finalmente acabarmos novamente nos estapeando e sorrindo após um bom sexo reconciliatório. Promessas e pedidos, amarguras e doçuras e lá estava eu na sala de parto do nosso primeiro filho. Inesperado, mas já infinitamente amado. Vimos seus primeiros passos, os dentes caírem e outros surgirem, as decepções de um jovem e as alegrias que passou. A vitória no vestibular, a derrota no futebol. Então após um mal estar veio a notícia da minha doença. Depois de tudo o que passei não desistiria fácil da minha vida e lutei com todas as minhas forças. Perdi os cabelos, a esperança, as forças. Mas meu sorriso continuava ali, até mesmo diante das lágrimas deles na hora da minha despedida. Eu o agradeço por todos os sorrisos, por todos os momentos felizes e também pelos tristes. Dei conselhos ao meu filho, agora um homem feito que eu torcia para ser tão feliz quanto fui. Eu tinha feito a escolha certa em ter abandonado tudo para finalmente me sentir viva.

Agora eu tinha meio século, dezoito mil duzentos e tantos dias, não sei quantas horas ou segundos e uma vida completa que chegara ao fim. E eu não poderia imaginar um final mais feliz.

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