2 de outubro de 2013

Alguém...



"...Um outro alguém que me tomou o seu amor."

Eu podia ouvir o som dos seus passos ao longe, rápidos e curtos. Sempre ficavam mais lentos quando se aproximava da porta de vidro. Acompanhava então seus movimentos, arrumar a franja que teimava em lhe cobrir os olhos, arrumar a alça da bolsa sobre o ombro direito, enfiar os dedos nos passadores da calça para puxá-la levemente para cima, passar as mãos sobre a barriga de forma a alinhar a blusa e finalmente entrava. Acenos e sorrisos para todos. Cumprimentos lentos até chegar a sua mesa, onde não precisava virar a cabeça para te olhar. Bastava apenas me inclinar um pouco para o lado e visualizar-te por trás do monitor do meu computador.



Todos os dias eu assistia seu ritual desejando dolorosamente ter estado ao teu lado enquanto você decidia que blusa combinava melhor com a calça azul que você usava hoje ou quem sabe que perfume deveria usar. Esse eu faria questão de sentir dando um leve suspiro em sua nuca. Hoje você parecia inquieta, mordia a borracha do lápis, balançava os pés, olhava de um lado para o outro, como se esperasse algo ou seria alguém? Torcia para não ser a segunda opção. No almoço, dava um jeito de sentar na mesma mesa que você. Nunca tinha coragem de puxar assunto, não foi diferente dessa vez. Engoli o almoço e murmurei uma desculpa de que tinha muita coisa para fazer.

Dessa vez, finalmente tomei coragem e lá estava sobre sua mesa uma simples rosa vermelha, o cartão anônimo levou horas e horas para que eu conseguisse escrever uma simples frase “Sempre à seus olhos”. Será que assim você entenderia que eu estava aqui, bem na sua frente, ansiando por um simples olhar? Um sorriso que fosse dedicado apenas para mim? Meu coração batia mais rápido do que seus passos. Meus olhos seguiam seus movimentos que pareciam executados em câmera lenta. Quanto tempo mais você levaria para chegar a sua mesa? Podia ver seu olhar intrigado sobre a rosa, o brilho que ele exibia, seu toque suave nas pétalas e enquanto você lia o cartão eu suava frio. Sua cabeça movimentava-se na minha direção.

Agora você sorriria para mim, eu sorriria de volta e ergueria os ombros, como se não fosse nada de mais. Andaria até você, te chamaria para um café onde conversaríamos finalmente sobre outra coisa que não planilhas e prazos, te deixaria em casa e no outro dia almoçaríamos juntos, quem sabe um cinema no fim de semana, um jantar, o que nos levaria ao próximo passo e ao seguinte e finalmente te teria em meus braços e a primeira coisa que eu veria ao acordar pelo resto da minha vida seria você.

Então tudo mudou. Enquanto você sentava-se e pegava o telefone, sorria enquanto conversava com alguém, podia ver sua face corar enquanto cheirava a rosa. Sou chamado para uma reunião e não posso continuar com o meu plano. Quem sabe durante o almoço ainda funcione, só precisava de uma nova estratégia. No almoço você não estava e chegou atrasada. Seu sorriso era contagiante e nunca vi seus olhos brilhando dessa forma. O dia foi embora e outro começou, não perderia tempo dessa vez. Quando ouvi seus passos tratei de ficar logo de pé, te abordaria ainda fora do prédio.

Desabei sobre a cadeira junto com os estilhaços do meu coração quando te vi dando um beijo de despedida em outros lábios. Nas suas mãos, novas rosas. Podia pegar trechos de suas conversas com a ruiva que eu nem me lembrava do nome, aparentemente ele era seu novo namorado pelo qual você estava apaixonada a muito tempo e ele finalmente se declarara ao te mandar uma rosa. Foi então que eu entendi que a minha declaração foi usada em consideração de outro amor. Meu mundo caíra e nada mais importava. Não sei bem quanto tempo passou, se foram dias ou semanas fazendo os mesmos movimentos, os olhos fixos no computador, os fones de ouvido. Tudo para evitar te olhar e até mesmo te ouvir.

Chegava para um novo dia no trabalho com a dor dentro do peito e logo me espantei com a rosa sobre minha mesa e um cartão escrito “Para seus sorrisos”. Rapidamente olhei para você que estava mais do que distraída em mais um telefonema, olhei então em volta e pude ver aqueles olhos azuis e curiosos por baixo de um cabelo ruivo e vivo, a expressão que eu mesmo tinha a algumas semanas refletida ali: o nervosismo. Eu erguia a rosa e sorria, de forma sincera. Escrevi em um pequeno papel “Café as 16h?” e vi o sorriso crescer em seu rosto sardento e sem jeito balançar a cabeça de forma afirmativa. No fim, a rosa me deu alguém para amar.


Atenção: Essa crônica faz parte do meu projeto Aquela Música que é composto por crônicas inspiradas em músicas. -Alguém- foi escrita inspirada na música A Flor da banda Los Hermanos.

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