27 de outubro de 2014

Para seus 67 anos


Quem decide ter um filho aos 41 anos? Ainda mais quando esse filho não é seu e "cai de paraquedas" na sua vida? Não consigo lembrar exatamente desde quando eu já sabia que era "filha do coração", apenas cresci com isso e para mim, era uma coisa normal. Também me irritava quando me viam com você e perguntavam "é sua neta?" E eu tinha um orgulho enorme ao responder "não, ela é a minha mãe." Você sempre me pedia pra deixar pra lá, mas eu não conseguia. Tinha orgulho de ser sua filha e queria que todos soubessem disso.


Lembro-me de você se matando de trabalhar para "dar tudo que existe de melhor pra mim" e ainda arrumar tempo pra me dar a melhor coisa grátis do mundo: seu amor. Lembro-me de quase todos os beijos e abraços dados a meia noite quando você voltava do trabalho, de ir te deixar na faculdade aos sábados de manhã (ainda de pijama) só pra ter mais tempo com você e daquelas pizzas a noite mesmo vendo as olheiras no seu rosto.

É fácil lembrar do dinheiro do lanche que eu juntava pra te comprar os presentes e mais fresco ainda em minha memória, está o dia em que eu consegui te comprar coisas e mimos com o meu próprio dinheiro. Mimos esses que sempre vinham seguidos de um "você não deveria gastar seu dinheiro comigo minha filha, já é tão pouquinho". E eu rebatia com o óbvio "se é meu, gasto com as pessoas que amo". A verdade é que eu queria te dar mais, muito mais. Como aquela viagem pra Fortaleza que nunca conseguimos ir ou aquele final de semana em Porto. Apenas sonhos não realizados.

Saudade que me toma e me deixam apenas as lembranças. Às vezes penso que estou melhorando e começando a ver "o lado bom" disso tudo, em lembrar apenas das coisas boas, como sempre me falaram que um dia aconteceria. Mas basta abrir a porta do apartamento vazio, dia após dia, pra trazer a tona milhões de lembranças, como no dia em que você queimou a pipoca de chocolate ou transformou o cuscuz em tapioca. Ou aquele em que tentei te fazer uma papa de Maisena e acabei inutilizando uma caneca e uma colher.

Ainda lembro-me da sua risada, do seu cheiro e do som dos seus passos. E me esforço dia após dia para não esquecer nenhum desses detalhes, por mais que cada um leve dezenas de lágrimas aos meus olhos. Hoje eu perco mais um aniversário seu, os seus 67 anos. Fico imaginando que artimanhas eu prepararia para essa data, lembro-me dos 50 palitos de fósforos no bolo e da sua risada quando viu aquilo. Você quebrou a promessa de viver até os 100 anos! Mas tudo bem, eu te perdoo e fico apenas esperando o dia que vou estar do seu lado novamente.

Um comentário:

Obrigada pela visita e pelo comentário! Não esquece de se identificar... Fico curiosa com anônimos! ;)