30 de agosto de 2017

Silenciando...


"...Nunca mais plateia no Municipal..."

O som dos saltos sobre os paralelepípedos da rua era a companhia da noite. De vez em quando um cachorro latia em algum lugar como se lhes fizesse companhia. Os passos tortos surpreendiam pelo equilíbrio ou, por vezes, a falta dele, mas andar na ponta dos pés nunca foi um problema. Saíra da festa antes do horário, madrugada a dentro, sem destino. Na mão ainda carregava uma garrafa de gin, a boca marcada pelo seu batom vermelho. Mais um gole e dava-se conta do fim do precioso líquido, com raiva jogava a garrafa contra a primeira parede que conseguia encontrar na penumbra, quase caíra com o impulso dado, mas retomara a compostura e seguia seu caminho.

Música! Conseguia ouvir música e risos ao longe. Uma festa? Será que conseguia entrar. Passava as mãos pelos cabelos volumosos, puxava os seios fartos pra cima e acertava os cantos do batom e em meio a esse gesto olhava através da janela. Era um pub a moda antiga, bancos altos na frente do balcão, iluminação amarelada e no palco algumas meninas mostravam seus talentos erguendo e abaixando as pernas em um cancã sincronizado. Podia ver nos olhos das meninas que passavam servindo as mesas.

Conseguia reconhecer em algumas o olhar que um dia já possuiu, o brilho do sonho de encontrar um grande amor que a tiraria daquela vida, que a daria uma vida de verdade. No palco ela conseguia ver ela mesma, o Municipal lotado, sua precisão e graça sendo aplaudida de pé no fim do espetáculo. Lembranças distantes de uma vida que abandonara em busca de outra e outra e outra… E olha só onde estava agora. Chorando na frente de uma janela empoeirada. Com pesar virava de costas e seguia rumo a avenida principal. Poucos carros naquele horário, alguns bêbados, algumas moças a procura de dinheiro. Nada fora do normal.

Estava a algumas quadras de casa quando aceitou a derrota e tirou os saltos. A meia-calça já desfiada agora também começava a ficar suja. Da pequena bolsa retirava as chaves da portaria, subia da forma mais silenciosa possível as escadas que pareciam gemer a cada passo que dava. Cinco lances de escada, cinco andares que lhe deram a chance de pensar no que faria dali por diante. Não poderia continuar assim, não aguentava mais continuar assim.

Aceitou o fim ao chegar a frente da porta, girou a chave, entrou com toda calma do mundo. Fechou a porta, trancou, colocou as chaves penduradas em seu local ao lado da porta, largou os sapatos, respirou fundo e foi até a cozinha. Abriu os armários até encontrar a garrafa que procurava. Sentou no sofá e chorou como nunca, chorou como uma criança que perdeu o seu brinquedo favorito. Deu vários goles na garrafa, o líquido amargo descia goela abaixo e queimava mais do que qualquer bebida alcoólica que já provara.


Bastaram apenas mais alguns minutos e outros goles para que ela por fim deitasse e então silenciasse.


Atenção: Essa crônica faz parte do meu projeto Aquela Música que é composto por crônicas inspiradas em músicas. -Silenciando- foi escrita inspirada na música A Bailarina Torta da banda A Banda Mais Bonita da Cidade.

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